Não sei se é o meu algoritmo, mas as redes sociais estão sendo inundadas por vídeos de IA com adolescentes da década de 1990 enviando mensagens para nós, habitantes da década de 2020.
Em mim, eles causam um impacto emocional surreal.
Há uns 6 meses, parei de seguir toda conta que não fosse de um "CPF" conhecido. Mas a Meta não permite que fiquemos isolados assim do mundo e insiste em enviar conteúdos de influenciadores.
Desde então, sinalizei dezenas de conteúdos como "indesejado". Mas é como marcar os números de telemarketing como spam — depois que seu contato cai na rede, é impossível se livrar dela.
Meses sem fofocas, notícias fúteis e trends. Até que o jovem lá de 1994 apareceu no meu feed. Naquela rua que parecia a minha, com aquele Nokia 1100 que parecia o meu, em frente à TV de tubo que tinha lá em casa...
Pelas centenas de milhares de visualizações e curtidas, percebe-se que o público-alvo foi atingido em cheio. É uma turma na transição dos 40 anos, cansada como os de 50, cheia de sonhos como os de 30.
São os jovens que viveram a virada do milênio.
Essas inteligências artificiais recriam perfeitamente a estética granulada das antigas fitas VHS. Elas simulam roupas largas e cenários analógicos, evocando uma pureza que contrasta com a hiperconexão atual.
A nostalgia é como o futuro do pretérito do indicativo: algo que poderia ter acontecido, condicionado a um passado irrealizado.
O verbo no futuro reflete promessas antigas de um amanhã brilhante.
Contudo, essas mesmas promessas foram rapidamente substituídas pela obsolescência programada e pela sufocante e inevitável evolução digital.
É por isso que vivemos, portanto, uma profunda contradição temporal: sentimos uma enorme nostalgia por um passado que, paradoxalmente, nós mesmos ajudamos a desconstruir quando éramos os jovens idealistas daquela época.
É por isso, então, que a crítica não deve recair sobre a geração atual de adolescentes e jovens.
Fomos nós que rompemos com os usos, os costumes e as tradições. Não as passamos aos nossos filhos.
Imagino que poucos conseguiram passar tudo aquilo adiante. A dinâmica da simples evolução natural das coisas nos levou coletivamente a isso.
Trocamos os encontros presenciais nas ruas e praças pelas telas acreditando que construíamos um mundo melhor.
Vivemos exatamente o que Zygmunt Bauman definiu como modernidade líquida. As instituições e os hábitos derretem antes que tenham qualquer tempo para se solidificar e serem repassados.
Na filosofia, a teórica Svetlana Boym nos alerta sobre os perigos práticos dessa saudade ao diferenciar a nostalgia reflexiva, que questiona o tempo, da restauradora, ilusória e paralisante.
Sob a ótica psicológica, Carl Jung explicaria esse desejo através do inconsciente coletivo, pelo qual buscamos âncoras emocionais seguras em épocas formativas para lidarmos com as inúmeras angústias do presente.
Se pensarmos bem, esses avatares são reflexos espelhados das nossas próprias faltas.
Eles nos mostram o futuro do pretérito que nós mesmos, de forma irônica, simplesmente abortamos.
Apesar disso tudo, sentir nostalgia é natural e bastante benéfico.
Ela funciona como um ótimo remédio para a alma quando a utilizamos de maneira saudável e construtiva.
Devemos relembrar daquilo que nos fez bem, mas sem a armadilha de comparar injustamente com o presente. O passado nunca deve ser um refúgio de lamentações.
O objetivo dessa viagem no tempo é revisitar valores.
Precisamos aprender como transportar o mesmo sentimento de alegria e conexão para a construção do hoje.