quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Pjotização: a porta de entrada para a autonomia?

A pandemia da COVID-19 redesenhou a arquitetura do trabalho em todo o mundo, seja no sistema de operação ou modelo de contratação. O que começou como uma resposta emergencial a uma crise sanitária evoluiu para uma renegociação do contrato social entre capital e trabalho.

O sistema remoto já era uma realidade para muitos profissionais, especialmente os de alto escalão. Quem não se lembra dos filmes onde chefões davam ordem de suas casas, sobre uma mesa cheia de documentos, enquanto compartilhava um café da manhã em família?

Em 2022, quando o modelo já parecia consolidado, vislumbrei a possibilidade de fazer uma transição de carreira. Trabalhar de casa realmente seria a realização de um sonho — além do certo previlégio que vejo nisso. E assim o fiz.

Mas justo agora, quando as empresas ganham ainda mais autonomia em processos e podem liberar ainda mais funcionários para o sistema, observamos um cenário de tensão dialética profunda: de um lado, a consolidação do desejo por flexibilidade geográfica e temporal por parte da força de trabalho qualificada; do outro, movimentos corporativos pressionando o retorno ao escritórioo (RTO - Return to Office).

Neste breve artigo, analiso a infraestrutura necessária para que trabalhadores autônomos, nômades digitais e prestadores de serviços (PJ) não apenas sobrevivam, mas prosperem neste ambiente, focando em táticas avançadas de autogestão e produtividade que farão qualquer empresa em repensar bem sua dispensa.

Return to Office ou cai fora!

Segundo o relatório People at Work 2023 (A global workforce view do ADP Research Institute), quase metade (48%) dos profissionais no mundo acredita que poderia se mudar para o exterior mantendo o emprego atual.

No Brasil, 35% dos trabalhadores afirmaram ter capacidade para realizar suas funções remotamente de qualquer lugar. À época, cerca de 28% dos trabalhadores em todo o mundo previam que a capacidade de trabalhar de qualquer lugar seria a norma em suas indústrias dentro de cinco anos.

Contudo, essa expectativa colidiu frontalmente com a realidade corporativa de grandes organizações tradicionais, como a Amazon e Netflix. Em 2025, vimos grandes conglomerados, gigantes da tecnologia e varegistas, iniciando políticas agressivas de RTO, muitas vezes utilizadas como ferramentas de gestão baseadas em headcount (determinando um número de colaboradores ativos dentro da empresa).

No Brasil, esse fenômeno impulsionou uma migração silenciosa: a "pejotização" e o empreendedorismo individual. Os dados abaixo podem indicar uma leitura mais crítica (Fonte: Sebrae):

  • +4,9 milhões de novas empresas abertas em 2025;
  • MEIs, MEs e EPPs representam 96%;
  • MEIs representam cerca de 77% dos novos pequenos negócios.

Em contrapartida, foram criados 1.279.498 novos empregos com carteira assinada (CLT) — resultado do saldo entre 26,59 milhões de admissões e 25,32 milhões de desligamentos (Novo Caged).

O contrato social na era da autonomia

A ascensão da pejotização, evidenciada pelo abismo entre o surgimento de novos CNPJs e o saldo modesto de vagas CLT, sugere que não estamos apenas diante de uma crise de contratação, mas de uma crise de pertencimento.

A "vontade do gestor" pelo retorno ao escritório é, em última análise, um esforço para reaver o controle sobre o tempo alheio — um recurso que o trabalhador moderno passou a considerar inegociável.

A liberdade tem um custo (e uma recompensa)

Ao escolher a pejotização como porta de entrada para a autonomia, o profissional assume para si os riscos que antes eram da empresa. No entanto, essa transferência de responsabilidade traz consigo o poder da descentralização. 

Quando o trabalhador deixa de ser um "headcount" e passa a ser uma unidade de entrega, a dinâmica de poder muda e a subordinação pode dar lugar à parceria.

Contudo, essa transição exige uma infraestrutura pessoal robusta. Para prosperar nesse cenário, não basta ter um bom portfólio; é preciso dominar a gestão do próprio tempo, a saúde financeira e, acima de tudo, a capacidade de gerar valor percebido que ignore fronteiras físicas.

Aqui no blog já falei sobre como organizar o trabalho autônomo em 2026, onde alerto que trabalhar por conta própria tem seus altos e baixos, sendo o maior ponto "contra" é que em muitos casos, você se torna um prestador de serviços recorrente, com agenda, dia e horário, sem as garantias trabalhistas.

Reflexão final: o futuro é de quem se "desgoverna"

A tensão dialética aponta para um futuro onde a estabilidade não virá mais do carimbo na carteira de trabalho, mas da agilidade profissional. A pejotização pode ser, sim, a porta de entrada para a autonomia, mas apenas para aqueles que compreenderem que ser "PJ" é mais do que uma forma de tributação: é o ato de se tornar o CEO da própria carreira.

No fim das contas, a verdadeira liberdade não está em trabalhar de onde quiser, mas em possuir a competência necessária para que a empresa precise de você mais do que você precisa do crachá dela.

A pergunta que fica para 2026 e além não é se o escritório vai morrer, mas se você está pronto para ser o dono da sua própria infraestrutura.


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